Caros amigos homeopatas,

Nos últimos dias, eu desfrutei o prazer de ler a dissertação de mestrado da colega Denise Espiúca Monteiro, docente do Instituto Hahnemanniano do Brasil, intitulada A Comunicação na Relação Médico-Paciente e a Consulta Homeopática. Adquiri um exemplar por ocasião do lançamento na Associação Médica Homeopática de Minas Gerais. A autora faz um paralelo minucioso acerca da diferença entre a racionalidade homeopática e a biomédica. Recomendo a obra às suas leituras. Ela nos recorda, em outras palavras, ser imprescindível valorizar o trabalho artesanal do homeopata, e acautelar-nos ante a produção de conhecimento que visem um diagnóstico embasado numa semiótica hipertrofiada. É o que sintetiza o Quadro 1, na página 32 do citado livro.

Denise mantém-se rigorosamente focada em decantar as virtudes da abordagem homeopática, centrando-se – com justiça – no precioso legado de Samuel Hahnemann. Ela realça a exigência de se preservar a pureza e a subjetividade inerentes ao método proposto pelo iniciador da nossa terapêutica. O modelo biomédico trabalha a partir da semiótica… através da anamnese e exame físico orientados ao esclarecimento e discriminação das hipóteses… (pág. 31) e embora o texto se refira à doença, considero pertinente aplicar suas palavras à propensão crescente de fomentar uma diagnose homeopática que reproduz, sutilmente, a sistemática da medicina convencional.
A autora nos incita a retomar o apreço pelo humano para só depois e, então, incursionar nas técnicas e condutas. A anamnese homeopática ressurge em sua beleza, simplicidade e poder. É nesse diálogo, único e singular, prenhe de empatia e acolhimento, que o doente se abre e expõe suas dores e sonhos, revela o seu passado e descortina o ansiado futuro. A secundarização dos aspectos psicoafetivos no atendimento homeopático constitui desvio grave. O texto nos conclama fidelidade ao projeto de Hahnemann: Ao recolocar o sujeito no centro da atenção, a Homeopatia avança na construção da integralidade da atenção, não apenas a partir da prescrição farmacológica. Revigora a relação médico-paciente como um dos elementos fundamentais da terapêutica, estimulando o autocuidado e autonomia do sujeito (pag. 139).

Eu já denunciei alhures, a tendência em nosso meio profissional de se usurpar o posto do paciente, despojando-o da propriedade de seus sintomas. Para que o homeopata possa atribuir significado a qualquer expressão ou atitude colhida durante a narrativa, é necessário que os diversos dados permitam a dedução aventada, com lógica e coerência. Portanto, à semelhança de Masi Elizalde que, aparentemente, se enganou ao estipular “ilusão” como o tipo de sintoma de mais alta hierarquia, todos os demais autores, proponentes de alguma priorização que elitiza esta ou aquela classe – a exemplo de modalidade, sensação, medo, sonho – também se equivocam.
Desse modo, as alterações mais importantes de um determinado caso são sempre aquelas que o próprio paciente lhes confere relevância. Ele é o dono de suas vivências. Quando se patenteia a sua incapacidade de nominá-las ou de definir o seu respectivo conteúdo, por limitações pessoais, cabe ao homeopata a inferência, desde que sustentado pelo conjunto do relato, independentemente de apriorismos. Somente a história global do sujeito pode elucidar a intenção ou motivo, que jaz no íntimo do distúrbio.

Sua dissertação nos sensibiliza para que jamais se apague de nossa memória o papel que escolhemos para o nosso labor cotidiano: Um médico é autêntico e congruente quando‘é aquilo que é’, quando suas relações com o paciente se desenvolvem sem máscaras ou artifícios, com expressão aberta e consciente de sentimentos, disponíveis, para serem assumidos e comunicados, caso necessário. Quanto mais o médico ouvir e aceitar o que se passa em si mesmo, assumindo a complexidade dos próprios sentimentos, maior será seu grau de congruência… (pag. 117).
Reduzir o trabalho homeopático à prescrição de um medicamento, ainda que muito bem selecionado, representa mutilar a atividade tão rica de insumos humanos e que tivemos o privilégio de abraçar ao darmos vida à vocação que nos ardia no peito. Destarte, cabe ponderar que ao exprimir entusiasmo desmedido pela invasão de informações tecnicistas a respeito da sintomatologia clínica, talvez o profissional esteja igualmente ausentando-se de si mesmo. Vez por outra, deparamos com colegas represados em seus próprios conflitos juvenis mal resolvidos; descompensados em distúrbios de lateralidade ideológica, seja de direita ou de esquerda; ressentidos com ações que rotulam de ataques à homeopatia; obcecados em tratar doenças com medicamentos dinamizados etc. Não seria interessante que todos nós nos propuséssemos a alcançar, antes de tudo, a cura de nossas próprias mazelas?!
Muitos outros pontos florescem no trabalho de Denise. Quisera eu que ela os redigisse solta, alheia às formalidades metodológicas, a fim de verter no tema toda a sua ternura poética. Todavia, é necessário que alguns de nós se empenhem para aumentar, ainda que minimamente, a produção acadêmica em homeopatia.

Aproveito para desdobrar o tema, pontualmente, além dos horizontes da relação médico-paciente. Abarrotar o profissional de ideias e noções preconcebidas no estudo da matéria médica, em função da categoria ou origem da substância – como se vê na tese oriunda da tabela periódica ou do reino da natureza – reproduz inconveniente análogo ao descrito acima, pois afasta-o da liberdade que deve guiá-lo na compreensão dos achados patogenésicos. Chego a pensar que burocratiza o raciocínio do homeopata, cerceando-lhe a leveza com a qual haveria de promover a livre associação (ou conexão) entre a patogenesia e suas múltiplas e, às vezes, ainda desconhecidas manifestações na clínica.

Parabéns, Denise! O seu texto reaviva o mandamento de que é indispensável receber o paciente de alma e coração abertos. O emaranhado de conhecimentos que nos ocupa o cérebro, deve aguardar por autorização antes de adentrar no cenário em que acolhemos o enfermo.

Gilberto Ribeiro Vieira
Médico Homeopata

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