Belo Horizonte, 12 de fevereiro de 2020.

Caros colegas,

Recentemente, eu passei por uma experiência que me induziu a profunda reflexão, e gostaria de compartilhá-la com este Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais.

Fui a uma farmácia, aqui em Belo Horizonte, com a intenção de adquirir um medicamento sedativo, cuja venda exige receituário controlado. Por não dispor desse instrumento, indaguei da possibilidade de efetuar a compra, apresentando minha carteira de identidade profissional, emitida pelo CRM-MG, e fui prontamente atendido. Solicitaram-me que preenchesse à mão uma folha de papel em branco, com informações pessoais e da medicação pretendida. Ao término do procedimento, já de posse do meu cartão de crédito, o gentil encarregado consultou em seu computador e verificou que o meu nome consta como inativo na lista deste Conselho. Portanto, ele não podia me vender o produto desejado.

Meu filho, a quem o fármaco era destinado, aguardava-me no saguão do estabelecimento e ao lhe comunicar o insucesso da empreitada, ele consolou-me, afirmando que buscaria outra solução. Porém, não é assim tão simples. Ele reside nos Estados Unidos e veio me visitar por apenas quatro dias, aproveitando uma viagem a trabalho.

Pior ainda foi a perplexidade que me empolgou inteiramente. Senti-me dominado por uma estranha sensação: ao cancelar a minha inscrição no CRM, três meses atrás, porventura eu deixei de ser médico? Será possível que a instituição, que me representa e supervisiona a vigilância ética junto aos discípulos de Hipócrates em terras mineiras, tenha noção das consequências de colocar o termo inativo associado ao meu nome em sua lista? Creio que não. Decidi, pois, narrar-lhes um pouco da minha história.

Talvez seja muita presunção de minha parte, mas ouso afirmar que nasci médico. A vocação aflorou em minha alma desde a tenra infância. Quando o governo militar se instalou no Brasil, e eu contava quase onze anos de idade, à época, meu pai sondou-me o interesse de eu seguir a carreira de Caxias. Surpreso com tal insinuação, eu lhe respondi de forma peremptória: vou ser médico!

Talvez seja muita presunção de minha parte, mas ouso afirmar que nasci médico. A vocação aflorou em minha alma desde a tenra infância. Quando o governo militar se instalou no Brasil, e eu contava quase onze anos de idade, à época, meu pai sondou-me o interesse de eu seguir a carreira de Caxias. Surpreso com tal insinuação, eu lhe respondi de forma peremptória: vou ser médico!

Morávamos na periferia de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, e não havia ainda nenhum parente que exercesse o ofício de Galeno. Embora respeitando a minha escolha, meu pai não participou do longo percurso me foi exigido. Pouco depois que completei quinze anos, o meu querido genitor e amigo partiu deste mundo, em função de um infarto fulminante. Apesar da dor imensa e solitária, o objetivo de tornarme médico sustentou-me as forças e três anos após a sua morte, vi-me aprovado no vestibular de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. A pediatria me aguardava no Hospital da Baleia e, logo, a neuropediatria em Brasília. Contudo, numa reviravolta do destino, interrompi a subespecialização, e me propus a estudar homeopatia, movido pelo resultado de um tratamento ao qual me submeti.

O encantamento com a ciência de Hahnemann conduziu-me a breve estágio em São Paulo e depois, Buenos Aires. Regressei disposto a prosseguir no aprendizado da nova especialidade incansavelmente. Nesse mister, residi em Belo Horizonte por três períodos, intercalados com Brasília, Rio Branco e Londrina.

Durante os dezessete anos que cliniquei no Distrito Federal, aceitei o convite para ser consultor do CRM-DF em homeopatia, no entanto, nunca houve demanda. Enquanto no Acre, onde permaneci quatorze anos, publiquei um artigo no jornal do Conselho Federal de Medicina, intitulado Pediatria: da neonatologia à hebiatria, na condição de professor de pediatria da Universidade Federal do Acre (UFAC). Todavia, a principal honra foi ter o livro Homeopatia e Saúde: do reducionismo ao sistêmico, publicado por coedição entre a UFAC e o Conselho Regional de Medicina do Acre.

Em paralelo à atividade profissional e acadêmica, cujo ápice ocorreu há cerca de três anos, com o curso de doutorado, graças à parceria entre a UFAC e a Universidade de São Paulo (USP), publiquei alguns livros relacionados ao Evangelho. O primeiro deles, o Evangelhoterapia, esquadrinha oito casos de cura do Cristo, segundo a abordagem holística, que julga a fração orgânica da doença mera extensão das características psicoafetivas do paciente.

Aposentei-me pela UFAC e Secretaria de Estado de Saúde do Acre há aproximadamente três anos e voltei a habitar em Belo Horizonte. A cada regresso, o CRM-MG restitui-me o mesmo número: 9506. Suponho que eu e ele nos pertencemos mutuamente. Entretanto, não montei consultório nem procurei emprego. Optei pelo trabalho voluntário. Nesse intervalo, promovi cursos de homeopatia, vinculados ora à Associação Médica Homeopática de Minas Gerais, ora ao Centro de Especialização em Homeopatia de Londrina, sendo o último, à distância. E, simultaneamente, alimentei um canal no Youtube, um site e uma página no Facebook, todos girando em torno do título do meu doutoramento, História de Vida e Prognóstico. Todo o material que produzi está disponível na internet, a exemplo dos livros, bem como os vídeos curtos sobre educação familiar, paixão incontida deste velho pediatra. É que meu mestrado, com foco em saúde do adolescente, permitiu-me compreender que se a criança não for educada com amor e firmeza, os conflitos inerentes à adolescência poderão suscitar danos duradouros no protagonista.

Desculpe-me se a prolixidade me avassala, impondo-me minúcias autobiográficas, mas admito que muitos colegas experimentem hoje ou experimentarão, algum dia, o dissabor de ver os seus nomes inativados na relação dos Conselhos Regionais de Medicina. Na verdade, eu gostaria muito de continuar este monólogo, descrevendo a luta que travei, visando despertar os estudantes de medicina para que considerassem a oportunidade de enriquecer os seus conhecimentos, adicionando-lhes uma pitada de homeopatia. Muitos deles se perdem, vencidos pela frustração de uma prática mecanicista e fria. Por outro lado, também reconheço e defendo junto aos meus pares, a necessidade premente de atualizar a teoria homeopática, esforço que iniciei no referido livro patrocinado pelo CRM-AC. Com esse objetivo, dei-me à tarefa de divulgar uma série de vídeos curtos, denominando-os Como Eu Vejo a Homeopatia.

De qualquer modo, o ofício médico constitui o sangue que me corre nas veias. A Vida me facultou ser um esculápio muito diferente do modelo que coloriu os meus olhos infantis. Tivesse eu mais amor no peito e faria tudo de novo. Com mais carinho, mais entusiasmo, mais capricho! Conquanto não me queixe dos resultados, não me vanglorio deles, pois devo-os ao Senhor, que me secundou em toda a jornada.

Peço, enfim, ao CRM-MG que analise a conveniência de alterar a classificação dos médicos que suspendem a sua inscrição neste Conselho. Não nos tornamos inativos. Somos inarredáveis amantes da medicina. A aposentadoria é somente brando crepúsculo em que a aconchegamos ao coração com mais ternura.

Agradeço-lhes por sua generosa atenção.

Cordialmente,

Gilberto Ribeiro Vieira

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