O CRISTIANISMO COMUNISTA E O CAPITALISTA

Acredito que seja importante discernir no Evangelho, as palavras e atitudes originais do Cristo das modificações introduzidas posteriormente pelos apóstolos, a fim de se entender o processo que gerou uma miscelânea entre o eu e o nós, o individual e o coletivo, o capitalismo e o comunismo. Jesus discursa para a individualidade e não para a multidão, com raras exceções. Quem quiser conferir, procure a quantidade de ocorrência das palavras ‘eu’ e ‘nós’ no texto dos quatro evangelistas. Confronte o uso do singular e do plural. E quando se socorre desse último, incontinenti ele retorna ao primeiro, a exemplo do Sermão da Montanha. Observe ainda que o pensamento de Jesus prioriza a relação pessoal com Deus e enfatiza o desafio da salvação como projeto evolutivo particular de cada criatura. Por fim, analise que a expressão Filho do homem sugere a predominância do aspecto masculino em sua própria personalidade . Apesar disso, o sublime Messias contempla e vivencia a face feminina em diversas realizações, como se verá abaixo.

Importa destacar que, se por um lado, Jesus Cristo se confessa preponderantemente masculino, centrado no eu e, logo, direitista, essa tendência não prevaleceu por muito tempo. Os Atos dos Apóstolos registram que os continuadores do trabalho do Cristo, não tardaram a tomar duas providências que modificaram totalmente o método primitivo: 1. Criaram um local para concentrar as suas atividades, conhecido como Casa do Caminho, reduzindo a autonomia exemplificada por Jesus; 2. Decidiram fundar um modelo coletivo. A notável mudança comparada ao procedimento do Mestre, evidencia-se na seguinte passagem:

E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.
E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.
E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração
(Atos, 2: 44-6).

A individualidade e a liberdade cederam vez ao coletivo e à união. Os apóstolos aboliram os ensinamentos do Cristo e tornaram-se comunistas. Tal reviravolta nos leva a constatar que nesse momento se introduziu a anulação da propriedade privada no meio cristão. Estabelecido o germe do comunismo, ter-se-á doravante uma confusão entre os pósteros. Muita gente conjectura que Jesus promulgou as diretrizes socialistas. E embora ele tenha trabalhado em grupo e atendido socialmente a multidão, inclusive fornecendo-lhe pão e peixe suficientes para mitigar a fome por algumas horas, o verdadeiro alimento foi a água viva, capaz de dessedentar a alma, conforme o Cristo elucida no diálogo com a mulher samaritana.
Entretanto, a propensão para exaltar a vida comunitária estipulou a obrigatoriedade da renúncia plena à posse de qualquer bem para todos os profitentes. A descrição do caso, a seguir, ilustra de modo irretorquível o estabelecimento de um padrão normativo despótico, enquadrando todos, sem exceção:

Mas um certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade,
E reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos.
Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade?
Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.
E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram.
E, levantando-se os moços, cobriram o morto e, transportando-o para fora, o sepultaram.
E, passando um espaço quase de três horas, entrou também sua mulher, não sabendo o que havia acontecido.
E disse-lhe Pedro: Dize-me, vendestes por tanto aquela herdade? E ela disse: Sim, por tanto.
Então Pedro lhe disse: Por que é que entre vós vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e também te levarão a ti.
E logo caiu aos seus pés, e expirou. E, entrando os moços, acharam-na morta, e a sepultaram junto de seu marido.
E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas. (Atos, 5:1-12)

A coerção ditatorial, coibindo a propriedade privada e asfixiando a individualidade, caracteriza a doutrina esquerdista. A liberdade foi extinta e sequer ouve-se algum vago lamento. Importa que ninguém aspire à sua própria originalidade. É necessário aniquilar o mínimo vestígio do eu e a sua respectiva autoestima, transmutado em Satanás na doutrina coletivista. Para garantir a doação falsamente voluntária, recorre-se ao terrorismo. Ai de quem não aderir ou o fizer apenas parcialmente. Houve um grande temor
Agora, é um por todos, todos por um. Em decorrência da coesão artificial, obtida graças à força e à autoridade intransigente, desemboca-se também na psicologia mafiosa. Os integrantes da unidade comunista estão acima de qualquer punição. A famiglia protege o transgressor e volta-se contra quem tenta submetê-lo à justiça. Se ele errou, foi pelo bem do povo-família. Não merece e não pode ser castigado. Ele é um dos nossos, igual aos demais. Pois então que julguem e prendam todos os infratores!

Deduz-se que a união, na ânsia de burilar o seu próprio fruto, converte todos os componentes ao mesmo denominador comum. Pretende-se a igualdade absoluta e propaga-se que o líder é tão-só aquele, supostamente, guindado ao comando pelo conjunto. Admite-se ingenuamente que ele abdica de seus altos predicados para se integrar à massa e ser “comum”, quase anônimo. Assim, a vertente comunista ultrapassa a ação pela força e penetra o terreno da fantasia. O comandante diz que o povo assume o governo. O homem simples crê nisso ao obter graciosamente parte de uma moradia nobre e um posto diferenciado na fábrica. Mas os chefes residem em palácios luxuosos, usufruindo o rico espólio da pátria subjugada. Imagina a festança quando a flora intestinal conquista, de súbito, o sistema nervoso e, a partir daí, apossa-se de todo organismo!…

A orientação esquerdista prosseguiu depois dos apóstolos e resultou na criação dos mosteiros. Há quase dois mil anos, integrantes doam os seus bens à instituição e passam a viver de acordo com rígida hierarquia, exercendo papéis padronizados. O processo perdura ainda em determinados ramos do cristianismo. Existe, porém, exigência peculiar: o celibato (estado ou condição de celibatário, de pessoa solteira). O número de evasões e escapadelas no tocante à abstinência sexual adverte o tremendo desafio inerente à proposta. Contudo, o método se circunscreve a quem aceita os critérios rigorosos e se propõe a cumpri-los. Não se destrambelha no delírio de implantar o regime na cidade, tampouco no país. Limita-se a exercício de um comunismo educado, de boas maneiras. Adere quem quer e, de preferência, vocacionado.

Vendo por esse ângulo, pode-se indagar o que impede os comunistas de viver em núcleos habitacionais específicos, abrindo mão da propriedade privada, da religião e de suas próprias características pessoais?! Tudo e todos pertenceriam ao conjunto ou agrupamento. Tal experiência, caso bem-sucedida, revelaria ao mundo as virtudes e benefícios dos fundamentos teóricos e, então, se disseminaria, convencendo os refratários. Tudo indica, no entanto, que o objetivo dos revolucionários se resume a tomar o poder, usando o povo na feição de pretexto descartável, com o intuito de decretar o novo estilo de vida compulsoriamente.

Retomando o Evangelho, percebe-se que Jesus Cristo, conquanto direitista em sua personalidade, esbanja sabedoria, equilíbrio, consciência de si mesmo e de Deus. Tamanha grandeza alia-se à humildade e permite-lhe apontar, dialeticamente, a união de todas as criaturas como princípio fundamental do cosmos , equiparável à liberdade. Nessa vereda, um aspecto que distingue o arcabouço cristão do comunista é a valorização da família. Jesus Cristo acompanha a natureza, na qual imensa quantidade de seres se acasala. Um homem e uma mulher devem se unir em compromisso vitalício. Tal enlace não deve ser rompido para o bem de ambos. Imediatamente após manter-se de coração limpo, a família surge como o bem mais precioso. Desfigurá-la ou extingui-la significa corroer a afetividade humana, rebaixando-nos à animalidade ou à robotização.
O casamento constitui a primeira e mais importante concessão da individualidade à carência de vincular-se a alguém do meio. O Cristo reconhece na diversidade de relações ou parcerias uma aspiração profunda e irreprimível da alma, que impele a criatura à formação de uniões transitórias ou duradouras. Concebe o fato como lei também básica da organização divina e que se projeta na esfera afetivo-social.

O valor da família, como célula da sociedade, tem sido o mais forte obstáculo à expansão do comunismo. É possível que isso se deva à pressa. A urgência de se atingir a unidade coletiva em larga escala julga que a família seja um estorvo. A visão tradicional, defensora do núcleo consanguíneo, argumenta que ela constitui o microelemento, cuja interligação de uns aos outros, virá a compor as nações e essas, por sua vez, moldarão o planeta. Cabe observar que ao prescrever o celibato para os seus sacerdotes, o cristianismo privou-os da experiência familiar, impondo a muitos deles frustração e vazio irremediáveis. Suspeita-se que o motivo basilar foi resguardar a instituição se, porventura, os descendentes viessem a demandar por eventual herança. O êxito do pensamento comunista atingiu a culminância: sem propriedade privada e sem família, o cristão afastou-se bastante do programa do Cristo e embrenhou-se na ideologia esquerdista. Há um nivelamento dos membros, em igualdade exacerbada, acarretando o desempenho repetitivo, mecanizado nos cultos.

Seguindo em frente, vê-se que Jesus assume, ademais, a sua porção feminina, embora secundária. O ato de formar um grupo de aprendizes, visando ensinar-lhes os princípios do reino de Deus, exibe a sua adesão à vida coletiva. Se na questão do casamento, tudo indica que ele lecionou apenas em teoria, na convivência em grupo, o Mestre exemplificará o respeito por si mesmo e pelo outro de maneira prática exuberante. O seu conjunto existe, porém, centrado na liberdade individual, evitando que a equipe se transforme num pelotão de clones, e prevenindo-se quanto ao surgimento de algum padrão geral de conduta. Acerca do valor da união, cito a afirmativa abaixo, chamando a atenção para o fato de Jesus esquivar-se da palavra nós. O amor de Deus é, preferencialmente, direcionado a cada um e não ao Todo. Eis aí a diferença entre o olhar masculino e o feminino, a direita e a esquerda. O fenômeno é o mesmo, todavia a descrição prioriza a centelha e não a totalidade:
Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim (João, 17:21-23).

O eu, princípio masculino e direitista, aparentemente começou a padecer distorção também desde os apóstolos. O Evangelho de João apresenta o Cristo como unigênito em seu primeiro capítulo. A ideia de que há um filho único transforma todo o restante em párias, meros figurantes da esplendorosa gênese divina. Daqui temos duas vertentes: egolatria (eu sou o maioral), e a idolatria (meu guru é superior). Em seguida, essa ala cristã transforma Jesus em Deus, automaticamente.

A sujeição do povo à notável figura do deus-homem, em troca da salvação e de um lugar no reino espiritual, inaugura a preleção capitalista. A aquisição da cadeira cativa no céu lembra um investimento. Os negócios atingirão um patamar insuportável e Lutero clamará contra o descalabro, séculos mais tarde. Menosprezou-se por completo e chega-se a duvidar que a expulsão dos mercadores do Templo de Salomão por Jesus tenha mesmo acontecido…

Quando se dá vazão à hipertrofia do eu, seja em mim, seja no outro, prolifera o germe insano do capitalismo. O cristão dessa margem sustenta geralmente alguma tese exponencialmente grandiosa: Jesus Cristo é o Senhor; a Bíblia é a palavra de Deus; a doutrina que professa é o Consolador Prometido ou a obra que o Movimento empreende mudará o estilo de vida na Terra. Nada é pequeno. Deu-se as costas à modéstia. A humildade morreu também na cruz do Calvário.

Esse discípulo majestoso tende a entregar-se ao casamento, porém não logra tempo para o convívio familiar. Os múltiplos afazeres, decorrentes de sua agenda religiosa cheia, turvam-lhe a mente; o cônjuge e os filhos metamorfoseiam-se em embaraços. Insuperável catequista, dedica-se a evangelizar o mundo, com palestras, livros, canções e artes diversas, pessoalmente e à distância, seja pela televisão, internet etc. Empresário eficiente, acumula bens e patrimônio à custa de sua pregação evangélica e usufrui de riqueza enorme, desprovido de pudor ou recato. O templo colossal e a festividade dos cultos atestam que ele granjeou maiúscula vitória. Em certos casos, ele acredita que a portentosa organização à qual se filiou e retém obrigatoriamente os seus ganhos, merece engrandecer-se sempre e sempre.

O direitista age com dinamismo intenso e, paradoxalmente, sem compromisso com as necessidades dos demais. O lucro impera e coordena todas as ações, alienando-o de qualquer escrúpulo por ser rico – às vezes, bilionário – (ele próprio ou a instituição) numa comunidade repleta de excluídos e famintos, desabrigados e analfabetos. O sistema lhe faculta a fortuna e aplaude-o de modo frenético. O dinheiro abre-lhe as portas para o prestígio e a satisfação de todos os caprichos. Agarra-se ao paraíso terreno, desapercebido de que transformou o Cristo em garoto propaganda, inconsciente da grave responsabilidade do gesto. Apagou de seu evangelho as assertivas em torno da criação divina como Templo de Deus.

O capitalismo é o método que institui a individualidade como princípio, meio e fim. O ‘eu’ liberta-se para gozar todas as vantagens que extrai do ambiente, dispensado de retribuição proporcional. Aqueles que carecem de potencial para se realizar com dignidade ou rogam ajuda para se autossustentar são rebaixados a cidadãos de segunda ou terceira classe. A cooperação jaz adormecida no sentimento do ser humano. As minorias não merecem inclusão. A concorrência ergue-se como mecanismo que regula a liderança religiosa, o mercado, o lazer recreativo, o mundo! O troféu pertence ao mais forte, ao melhor, ao exímio nisso ou naquilo. A fila para o estrelato, a riqueza ou o comando nunca termina. O reino, o poder e glória, os quais Jesus declara pertencer a Deus, em sua célebre oração, representam objetos de desejo da imensa maioria. Entretanto, os que galgam tais cumes, assomam-nos cansados, tristes, espoliados. Exaurem-se na solidão da escalada, quais alpinistas obcecados pela altitude. Eu, eu, eu! – retumba a voz íntima, avessa ao nós.

Em síntese, a face esquerda inclina-se para nos agregar em subconjuntos, de dois componentes até o inumerável. Quanto maior a conta, mais intensa a despersonalização. A mediocridade se impõe a fim de encerrar um volume ou massa elevada de participantes. Almeja-se a perda de individualidade, gerando um bloco unitário de elementos iguais. Cumpre recordar que a identidade é indestrutível e ressurge quando menos se espera e ainda que a sufoquemos com todas as máscaras e reducionismos: Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles (Mateus, 18:20). No polo oposto, a direita promete ao eu uma liberdade que espezinha qualquer limite. O indivíduo excede-se em seus talentos e transfigura-se num excêntrico, saindo fora da curva. Capitula ante o narcisismo, entrega-se ao autoelogio, vende a alma ao diabo a troco de fama ou riqueza. Importa resgatar a advertência: Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem (Lucas, 6:26).

Esmiuçando-se as palavras e atitudes do Cristo, depara-se com abundante clareza de ensinos, alicerçados numa prática permanente. Ele conhece muito bem a si próprio e admite-se com predominância dos atributos marcadores do eu, mas realça a imprescindibilidade dos vínculos afetivos. Exalta o casamento e os laços consanguíneos, tanto que no alto da cruz, ele recomenda ao apóstolo João e à Maria, sua mãe, para que se reorganizem como família. Também não manifesta nenhuma ansiedade para incutir os seus conceitos e exemplos nos aprendizes. A Boa Nova se estenderá do oriente ao ocidente e de norte a sul, mas no tempo oportuno, na paciência dos milênios. A principal enunciação de Jesus, reiterada frequentemente, alteia-nos à filiação divina. Somos todos filhos únicos de Deus, felizes integrantes do complexo organismo universal e infinitamente amados por Ele.

Portanto, o ‘eu’ e o ‘nós’, individualidade e relacionamento, masculino e feminino, direita e esquerda constituem aptidões divinas inseridas pelo Criador em nossos espíritos. A gradação de ambos os princípios varia caso a caso, ensejando a magnífica diversidade que encontramos em a natureza. Livra-nos do mal, Senhor, de viver em discordância com o nosso próprio fulcro espiritual ou de desrespeitar a identidade alheia, bem como de ser infiel à verdade interior, conquanto progressiva.

Aparentemente, nenhum líder insculpiu na alma popular as lições referentes ao ‘nós’ com a mesma consistência que Jesus o fez em relação ao ‘eu’. Na aparente falta de algum mestre iluminado que nos aponte, com segurança, as estrelas norteadoras para o empreendimento coletivo, haveremos de ainda recorrer às asserções do Código Evangélico e sua ênfase na união. Se a liberdade madura conduz à assunção responsável das consequências de nossas escolhas, o Cristo propõe o amor como ingrediente indispensável às parcerias e associações. Assim, equilibram-se as duas propriedades celestes que nos habitam a essência. Isentos de radicalismos e transtornos ideológicos, busquemos a nossa própria autenticidade nas profundezas do Eu, e edifiquemos vínculos amorosos dignos, a fim de alcançar a plenitude gratificante e a alegria perfeita.

Gilberto Ribeiro Vieira
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