Gilberto Ribeiro Vieira

 Introdução

A literatura homeopática, em geral, promove reducionismo intenso no estudo da matéria médica de Lilium tigrinum (Lil-t), ao considerar que tanto a obliquidade ou desvio como o dever imperativo, mencionados na patogenesia, se restringem às questões sexuais e/ou sensoriais. A obliquidade aparece em: um receio de obliquidade/desvio moral pesava muito sobre ela, …após a excitação sexual1 (an apprehension of moral obliquity weighed grievously upon her, …after the sexual excitement). Por sua vez, encontra-se o dever em: constante sensação de pressa como se por deveres imperativos…[i]. (Constant hurried feeling as of imperative duties), verificando-se, em tese, que o desvio se refere ao afastamento de suas respectivas obrigações. Do contrário, Lil-t só se aplicaria a pessoas com antagonismo entre a sexualidade e a sua própria consciência ou concepção religiosa.

Contudo, os casos clínicos demonstram que os horizontes de Lillium tigrinum transcendem muito as limitações e estereotipias, que insignes mestres lhe imputam. Aliás, cabe observar que os estudos de matéria médica (MM) desde J.T. Kent, no alvorecer do século XX, delinearam uma personagem fixa para cada patogenesia, quando possível. Em épocas mais recentes, coube a Masi Elizalde alçar importante degrau, estabelecendo que cada remédio protagoniza um tema existencial. A compreensão obtida graças a dialética avança nessa vertente e contribui para se priorizar o efeito patogenésico (EP) constante na MM. Ao mesmo tempo, concorre para se perceber a interação abrangente e dinâmica que reúne todos os sinais de um medicamento, descobrindo-lhes a identidade única. A rigor, o que se disponibiliza nos compêndios contemporâneos propõe, por um lado, alcançar um resumo dos dados da MM, à custa da seleção dos traços registrados, à moda da síndrome mínima de valor máximo e, pelo outro, permite o surgimento de criatividade inconsistente por parte de certos autores, oriunda de crenças pessoais.

Vê-se, com regularidade inapropriada, a distorção de atribuir valor ao EP ou à rubrica repertorial, segundo o esquema de classificação imaginado pelo próprio homeopata, a priori, seja por elementos da tabela periódica, seja por reinos da natureza e assim sucessivamente. Ora, o efeito patogenésico (chamado erroneamente de sintoma no meio homeopático) demonstra a sua importância, por si mesmo, ao exprimir o seu próprio conteúdo e encadear-se aos outros EPs do remédio para a expressão de seu tema. É a análise do conjunto de características de uma MM que conduz ao diagnóstico da relevância de cada detalhe. Outorgar primazia a algum “sintoma” por ele pertencer a determinada classe ou provir desta ou daquela estirpe, configura prática preconceituosa. Qualquer dado pode se sobressair numa MM, desde que o seu significado ocorra também de modo analógico, progressivo ou simbólico noutros itens marcantes daquele medicamento.

Convido, pois, o leitor a comparar o rascunho do estudo de Lilium tigrinum, exposto abaixo, com as publicações realizadas por homeopatas, incluindo os de prestígio internacional, e efetuar suas próprias deduções. Haverá de constatar que o gênio, a vida ou a alma da MM emerge de seus próprios EPs. Destitui-los deste honroso lugar representa um tipo de estelionato, do qual o homeopata deve se precaver!

Em paralelo, recomendo a leitura do arquivo Caso Clínico ATM. Complementaremos as ilustrações com outros casos durante o curso na AMHMG, a partir de fevereiro/18.

SUMÁRIO DIALÉTICO DE LILIUM TIGRINUM

Aparentemente, Lil-t gira em torno de dever, obrigação (duty) no polo positivo, versus obliquidade, desvio (obliquity) no polo negativo.

Duty vem do efeito patogenésico (EP): Constante sensação de pressa como se por deveres imperativos e expressa inabilidade para realizá-los; durante a excitação sexual [a16][1]. (Constant hurried feeling as of imperative duties and utter inability to perform them; during the sexual excitement).

E obliquidade surge do EP: Profunda depressão mental; para o experimentador “o céu parecia latão e a terra ferro; um medo de obliquidade moral pesava muito sobre ela, durante dez dias após a excitação sexual…1 (Profound mental depression; to the prover “the heavens seemed brass and the earth iron”; an apprehension of moral obliquity weighed grievously upon her, for about ten days after the sexual excitement…).

Duty significa:

  1. Um ato ou curso de ação que é requerido de alguém pela posição, costume social, lei ou religião: faça o seu dever para com o seu país[1].
  2. a. Obrigação moral: expressão de dever. b. A compulsão sentida para cumprir tal obrigação[2].

Obliquity² significa:

  1. Qualidade ou condição de ser oblíquo.
  2. a. um desvio da linha, plano, posição ou direção vertical ou horizontal. b. o ângulo ou extensão de tal desvio.
  3. a. desvio ou aberração mental. b. conduta imoral.
  4. a. obscuridade em conduta ou expressão verbal. b. uma afirmação obscura[3].

Por um lado, a sensação de dever e, pelo outro, o desvio da obrigação formam a bipolaridade essencial deste medicamento. A acepção número 3 de obliquidade, acima, já aponta a associação entre desvio e aberração mental, sendo a loucura um dado importante nesta matéria médica.

No pólo positivo ele usa a concentração em si mesmo ou em alguma coisa e a pressa, como os principais mecanismos para se fixar naquilo que escolheu para executar. Afastar-se de suas obrigações é imoral. Pressa é a necessidade intensa de atingir um objetivo[4], o que guarda grande semelhança com o dever, o qual também significa: ter de; precisar.4

Dever imperativo é uma sensação na qual se apóia para exigir dele mesmo a concentração e o cumprimento das metas, sem qualquer desvio. É ele quem confere ao dever a noção de imperiosidade. Imperativo significa: que acentua o caráter de mando, de autoridade, ou que exprime uma ordem; autoritário; que se impõe sem discussão possível;

que indica ordem, pedido, exortação etc. Mas, simultaneamente, o item patogenésico refere-se ao pólo negativo, quando afirma que não dispõe de habilidade para realizá-los (utter inability to perform them). Esta falta de confiança em si mesmo para com as obrigações indeclináveis traduz a psora ou sofrimento básico deste medicamento. Eis aí o cerne do conflito de Lilium tigrinum: o dever se lhe impõe à consciência, mas não se sente com aptidão ou talento suficente para desempenhá-lo.

Com toda esta depressão, vem um desejo por coisas finas de todos os tipos1 (With all this depression comes a desire for fine things of all kinds). Apesar da citação se iniciar com depressão, portanto, polo negativo, o resto destaca-se como polo positivo. Fine tem três acepções que podem contribuir para a compreensão deste efeito do medicamento: a) apurado4 – que também significa apressado; b) treinado no mais alto grau de eficiência física[1]; c) soma em dinheiro requerida como pagamento por uma ofensa[2]. Desse modo, pode-se conjecturar que coisa fina, para Lil-t, significa algo que precisou de muito treino, o que só se alcança por meio de uma disciplina que não tenha desvios ou afastamentos, portanto, feito com o devido apuro. Além disso, fine é a soma necessária ao pagamento de uma ofensa, e veremos abaixo a estreita relação entre o dever e a dívida.

Em seguida, um mergulho no polo negativo: Sensação como se ela fosse ficar louca, caso ela não passasse[i] para si mesma e segurasse firme1. (A sense as if she were going to be crazy, if she did not hand on[3] to herself, and hold tight). O desvio levará à loucura. Crazy[4] significa: afastado da proporção ou moderação, especialmente: a. possuído por entusiasmo ou excitação… c. intensamente envolvido ou preocupado… A loucura em Lilium tigrinum é, portanto, um desvio acentuado, fruto de um afastamento progressivo de si mesmo. Firmar-se nela mesmo (hand on to herself), segurar-se com força (hold tight) em si própria é o antídoto fundamental para não se distanciar da sua consciência. Destaque-se que a palavra hold2, por si só, caracteriza esta convergência para o próprio indivíduo, pois significa: permanecer sem partir ou se desviar, nem tomar distância (To keep from departing or getting away). Também irá se mostrar muito desviado no sintoma: está acordado, ainda que pareça sonolento e distante (is awake, yet seems asleep and a far off).

Pode-se dizer que o pólo positivo se caracteriza pela concentração em si mesmo através, principalmente, do dever. Entretanto, a projeção hipertrófica desta virtude promoverá a atração para si dos deveres daqueles que o rodeiam, como se verá adiante. E no pólo negativo surgirá uma incapacidade de cumprir suas obrigações, transferindo-as para os demais.

O pólo positivo caminha para o extremo de se concentrar de forma impositiva naquilo que elege como seu dever e, possivelmente, será algo transmitido a ele por outra pessoa que talvez nunca assumisse aquela obrigação para si mesma. Um sintoma que se aproxima deste quadro é: pensa que está condenada a expiar os seus pecados e aqueles de sua família[ii] (thinks she is doomed to expiate her sins and those of her family). É notável como este sintoma reúne a possibilidade de transferir (portanto, desviar) o problema dos outros e concentrá-los numa só pessoa. Contudo, o mais saliente neste dado é que o dever hipertrofiado se degenera em dívida. E por conta disso, há que expiá-la. Redundantemente, o dever do devedor é saldar a sua dívida… Por que então não caminhar para o extremo de colocar-se como responsável até mesmo pelas dívidas de seus próprios familiares?

O sintoma a seguir revela uma situação praticamente inversa, que pode ser vista como a tendência predominante do pólo negativo: não consegue pensar; age sem pensamentos; não pode decidir por si mesma, deve depender dos outros1 (She can’t think; acts without thoughts;(…)can’t decide for herself, must depend on others). Lil-t se afastou completamente de si mesmo a ponto de agir sem pensamentos e chega ao cúmulo de depender dos outros para tomar as suas próprias decisões. Imagine-se o estado desta criatura, cuja virtude é assumir o seu dever de forma absoluta, chegar ao ponto de não saber o que fazer e sentir-se na dependência da opinião alheia!…

Ressalte-se ainda que um sintoma peculiar de Lil-t é: ela tem horror de dizer qualquer coisa para alguém, pois ela poderia dizer alguma coisa errada1 (She dreads saying anything to anybody, lest she should say something wrong). Observe que uma das acepções de obliquidade, referida acima, é: obscuridade na conduta ou expressão verbal. O sintoma também aparece como: não consegue encontrar a palavra certa1 (cannot find the right word). Existe, portanto, o termo certo, devido, e houve um afastamento do mesmo.

Outra peculiaridade: medo de sofrer uma doença interna terrível, já instalada1 (apprehension of suffering from some terrible internal disease, already seated). Registre-se que a doença é interna – concentrada no âmago dele mesmo – e o fato de estar instalada significa que não há mais como ser desviada.

Outro dado interessante: ela está insatisfeita com o que ela tem, e invejosa dos outros 1 (she is dissatisfied with what she had and is envious of others). Inveja significa: Desejo violento de possuir o bem alheio3, o que obviamente demonstra um afastamento do valor de si mesmo e de suas coisas, aliado a uma necessidade do bem ou das qualidades alheias. Note-se que prepondera aqui a atração das coisas alheias para si mesma, de forma indevida e admissão de que o desvio aconteça. Tal possibilidade configura uma desconcentração, o oposto do firmar-se em si mesmo.

Finalmente, destaca-se o EP: Atormentado pela sua salvação4 (Tormented about her salvation). Salvação significa, dentre outras acepções: livrar de ruína ou perda total4. É muito comum que ruína esteja associada a dívidas em excesso. Este sintoma sinaliza que Lil-t quer salvar-se, evitando a tendência a se abarrotar de deveres ou assumir obrigações de terceiros.

Três sintomas bipolares interessantes são:

  1. Sensação terrível na cabeça como se eu fosse ficar louca e ninguém fosse cuidar de mim¹ (Wild feeling in the head as though I should go crazy and no one would take care of me). Para que ele não fique louco – desviado de si mesmo, ele necessita que alguém se desvie de si próprio para cuidar dele.
  2. Ela quer que alguém converse com ela para entretê-la¹ (She wants somebody to talk to her and entertain her). Entertain¹ significa prender a atenção de alguém com alguma coisa agradável ou divertida. Note-se que divertir é fazer mudar de fim, de objeto; distrair; desviar¹. Portanto, ao mesmo tempo em que aquilo fixa sua atenção, está desviando-a de outra coisa. Este sintoma faz pensar que a alta pontuação de Lil-t na rubrica Assume muitas coisas, mas não persevera em nada² (Undertakes many things and perseveres in nothing) está relacionada ao predomínio do desvio sobre a concentração no dever.
  3. Eu posso ver em torno de mim uma porção de coisas que eu devo fazer, mas eu não consigo me forçar a fazer nada1 (I can see around me any number of things I must do, but cannot force myself to do anything). Aqui o dever chama, mas ele se afasta do cumprimento.

Conclui-se que o desvio sexual é apenas um dos vários aspectos em que a obliquidade pode se manifestar.

Quanto ao sintoma que envolve os termos brass e iron, pode-se presumir o seguinte:

Brass (latão) quer dizer: Auto-confiança excessiva; impudência; audácia insolente2. (excessive self-assurance; impudence; effrontery).

Iron (ferro) significa: Grande força ou dureza; firmeza2 (Great hardness or strength; firmness).

= quando Lil-t compara o céu ao latão permite supor que sua felicidade seja libertar-se do dever, conservando a confiança em si mesmo, a ponto de cometer algum ato despudorado ou audacioso e, apesar disso, manter-se em paz. Mas, a terra de ferro lembra-lhe que é necessário entregar-se completamente às obrigações ainda que isso denote uma condição dura e até mesmo cruel ou desumana3.

É possível que a sensação de dualidade[iii] (mind, confusion, identity, duality, sense of)5 de Lilium tigrinum seja: aferrado ao dever e, simultaneamente, vivenciando algum desvio consciencial grave ou, ainda, entregue aos desvios e se julgando compenetrado em seus deveres.

Peso para baixo no útero e reto7 (Bearing down in uterus and rectum) – ‘bear down’ significa aplicar o máximo esforço e concentração. A compreensão de que este sintoma – muito útil para a aplicação clínica deste medicamento – envolve a idéia de concentração, reforça a proposta feita no presente estudo: dever que se concentra em si mesmo, culminando na atração de obrigações alheias para o próprio sujeito e, ao mesmo tempo, um progressivo desvio dos deveres, chegando à loucura ou dependência de que os outros lhe digam o que fazer.

[1] Entertain significa: To hold the attention of with something amusing or diverting.

[1] An act or a course of action that is required of one by position, social custom, law, or religion: Do your duty to your country.

[2] a. Moral obligation: acting out of duty. b. The compulsion felt to meet such obligation. See Synonyms at obligation.

[3] The quality or condition of being oblique.  a. A deviation from a vertical or horizontal line, plane, position, or direction. b. The angle or extent of such a deviation.   a. A mental deviation or aberration. b. Immoral conduct.  a. Obscurity in conduct or verbal expression: … b. An obscure statement. 

[4] Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.11ª

LILIUM TIGRINUM – CASO CLÍNICO 1 

                                                                              Gilberto Ribeiro Vieira

Os trechos em negrito ou sublinhados foram os mais importantes para a prescrição.

ATM, sexo feminino, 55 anos, natural do Acre.

© 2009 08 03

Fiz tratamento de câncer de mama há quase 7anos – ultimamente muita dor nos ombros; sobe para os lados da nuca e desce para os braços. Tudo dolorido… sinto as veias altas. > com massagem e gel. O câncer foi na mama esquerda.

Um pouco de insônia.

Sinto muito cansaço no corpo inteiro. Tem dia, muita disposição. Tem dia que se eu pudesse me trancava para ninguém me perturbar, ninguém falar comigo.

Muito estressada, muito irritada, por nada! – choro, vontade de correr, de gritar, de espremer as pessoas e jogar fora. Sem sossego, andando o tempo todo.

Choro a toa – não sei porque. Só de olhar para as pessoas já estou chorando…

– sinto em mim aquele desespero. (chora convulsivamente)

Muito desespero: parece que sou a última das pessoas passando por aquilo; sobrou pra mim e não sei o porquê. Por que tudo aquilo veio só pra mim e não foi dividido com outras pessoas?

– por que aconteceu só comigo? Não podia ter acontecido com outra pessoa?

– por que tanto sofrimento para uma pessoa só? Por que não foi dividido? Uma quantia menos pesada: paciente não tem ideia do porquê.

Choro à toa mesmo.

HP: ndn.

Câncer: cirurgia, radioterapia, tamoxifeno durante 5n. Vivo tomando remédio para controlar minha pressão. Hidroclorotiazida, AAS, etc. Controle anual do câncer. Existe suspeita atualmente que passou para a outra mama – exames em andamento.

       HF: eu e filha (25anos) ultimamente. Fui casada com o pai dela – ele me abandonou quando ela tinha 1ano e 7 meses. Aos 9anos dela, arrumei outro companheiro que ultimamente me abandonou também. Não sei se foi devido ao tratamento que fiz.

Temperamento:

 Muito agitada. As pessoas me tratando bem, sou maravilha. Mas se vier querendo me humilhar, me menosprezar – que é quase a mesma coisa – fico agressiva. E muito! → eu ofendo, se precisar, eu bato. Nunca tive instinto de matar, graças a Deus! Eu bato, eu mordo, eu chuto. Mas, me respeitou, foi honesto comigo, tudo bem!

– ex: numa fila; fui a terceira a chegar. Se funcionária passar alguém na frente, já fico de olho. Se passar outra, eu perco as estribeiras. Os direitos de cada um têm que ser respeitados. Seja em casa, num hospital, num banco. Não aceito, não gosto e não permito. Eu respeito os outros, por que não me respeitam? O que veem em mim, na minha estatura, que alguém deve ser atendido na frente?

Sou muito simples, humilde. Não tenho luxo comigo. Gosto de ajudar as pessoas, me sinto bem. Totalmente simples. Não gosto de luxo, de grandeza, de me esnobar, de mostrar que tenho isso ou aquilo.

– luxo: às vezes a pessoa deixa de comprar um alimento para comprar roupas boas e bons calçados, bolsa chic; carro ou casa bonita! Para mostrar que tem dinheiro, que ele pode… Mania de grandeza, de luxo, de mordomia.

Vivo só!… Minha filha faz faculdade de manhã e trabalha à tarde. No fim de semana ela sai com o namorado, eu fico sempre só.

Quando muito estressada, vou para vizinha. Ela mora sozinha, fez o mesmo tratamento que eu, mas no nariz.

Mas, precisou de mim, estou pronta para ajudar!…

Na rua, me chamam de velha besta, porque não misturo com ninguém. Casa dos outros só da fofoca!…

Meu grande erro nos dois casamentos foi: eu trato muito bem, entrego roupa, sandália, faço o prato, o suco, tudo na mão! É este o meu defeito. Deixo de cuidar de mim, da minha saúde, para cuidar dele. É isso… abandono os meus afazares para cuidar do fulano. Para não ser reconhecida depois?! → me sinto nada. Uma água que você pega e derrama assim… (amargura)

Sou muito vingativa também. Sou mesmo!… Sempre digo – eu guardo um ano, para colher num segundo. E sempre eu colho. Último casamento – ele saía a hora que queria e ele sempre me humilhando, dando gargalhada na minha cara, me rejeitando. Agora, você não entra na minha casa. Não lavo mais roupa pra ele, não faço mais comida… É a maneira de retribuir. Já joguei as coisas dele tudo lá fora. É uma vingança! (fala com raiva)

Medo: quando sozinha em casa – de ladrão. Desespero quando descobri a doença no peito – medo de não dar conta de acabar de educar a filha. Medo de ir pra casa sozinha à noite. Especialmente quando em tratamento fora, em cidade desconhecida.

ID: câncer de mama. Hipertensão arterial.

@ 2009 08 03– Lilium tigrinum 20 LM – 3 microglóbulos – dose única.

OH – evitar a inclusão de novos medicamentos químicos.

Voltar em 14 dias

© 2009 08 14 – retorna após 11 dias

Senti muita calma. Em parte, eu melhorei. Me admiro de como surgiu tanta calma. Eu me pergunto e não sei de onde…

A dor na nuca não senti mais. Mas nos ombros continua. Desce para as mãos – antes subia dos ombros para a nuca (no alto da nuca). Agora só desce… – já descia antes também.

Agora sinto bastante dor nas costas. Não tinha antes. Ex: quando curvada na pia ou no tanque. Quando me sento na cadeira de descanso alivia. Doeu mais durante dois dias há mais ou menos uma semana.

Senti frieza na perna, face lateral, e o tornozelo ficou bastante inchado. Só à esquerda. Mas passou…

Medicamento “X”: dobrou a minha paciência, a minha calma, a minha paz… Aquele desespero, aquela ansiedade… Estou com muita ansiedade para comer, comer. Sinto que estou farta, mas tenho que comer. Não sei se é porque vivo só. Não tenho com quem conversar e me bate ansiedade. Acho que é isso. Não sei nem explicar. Falta de alguém para conversar, dividir alguma coisa… Aí recorro à comida.

O quadro emocional melhorou, melhorou, melhorou! A vontade de pegar alguém e matar e virar do avesso passou… → para que não me veja mais, não fale comigo, nunca mais me procure. E jogar para o lixeiro levar e enterrar e pronto. Nem lembrar que eu existo, que me viu – me apagar da mente dela de uma vez por todas. Como um fogo de lenha que você não quer mais aceso e aí você apaga. Apagar na mente dele que eu existo.

Me sentindo leve, aliviada. Gostando um pouquinho de mim mesma. Não muito, mas um pouco. Tô percebendo que preciso viver, gostar de mim, me cuidar. Alguém uma hora vai precisar de mim. Como a filha… Uma vizinha. Pensava que não servia mais para coisa nenhuma. Era inútil.

= pra mim tanto fazia continuar vivendo. Era até melhor que o meu término de vida aqui na Terra chegasse. Imaginava que ia parar de sofrer. Até pedia pra Deus. Agora acho que vale a pena você viver!

= a gente tem que fazer caridade, ajudar alguém que necessita mais do que você. Pessoa que necessita de alguma coisa mais do que eu. Tomar a frente e ajudar e incentivar, ensinar: você vai entrar numa fila assim e assim, ou como começar a resolver um problema…

Sonhos: ndn.

Continuo com remédio para pressão alta. Medi uma vez no período: 14×8.

Minha filha é enfermeira.

ID:: Boa resposta.

@ 2009 08 14 observação.

Fazer anotações sobre si mesma.

Retornar em 30 dias ou SOS.

Comentários do caso do Caso Clínico 1

O primeiro dado a ser analisado, cuja peculiaridade chamou a atenção para a possibilidade de se tratar de um paciente Lilium tigrinum é: Muito desespero: parece que sou a última das pessoas passando por aquilo; sobrou pra mim e não sei o porquê. Por que tudo aquilo veio só pra mim e não foi dividido com outras pessoas? Por que aconteceu só comigo? Não podia ter acontecido com outra pessoa? Por que tanto sofrimento para uma pessoa só? Por que não foi dividido? Uma quantia menos pesada: paciente não tem ideia do porquê.

Este sintoma lembra a expressão da matéria médica: thinks she is doomed to expiate her sins and those of her family (pensa que está condenada a expiar os seus pecados e aqueles de sua família). Observe-se que ela não se refere a pecados nem à família, mas ao fato de que aquilo pelo qual está passando se concentrou em sua pessoa e não foi dividido com mais ninguém.

O segundo item destacado é: Não gosto de luxo, de grandeza, de me esnobar, de mostrar que tenho isso ou aquilo.

– luxo: às vezes a pessoa deixa de comprar um alimento para comprar roupas boas e bons calçados, bolsa chique; carro ou casa bonita! Para mostrar que tem dinheiro, que ele pode… Mania de grandeza, de luxo, de mordomia.

Pode-se entender luxo e chique como relativos à coisa fina: With all this depression comes a desire for fine things of all kinds (com toda esta depressão, vem um desejo por coisas finas de todos os tipos).

A paciente se coloca no polo negativo em relação às coisas finas. Não chega a ter aversão, mas subentende-se que primeiro há de se cuidar das necessidades básicas, pois elas são obrigatórias.

Terceiro sintoma assinalado no caso clínico: Meu grande erro nos dois casamentos foi: eu trato muito bem, entrego roupa, sandália, faço o prato, o suco, tudo na mão! É este o meu defeito. Deixo de cuidar de mim, da minha saúde, para cuidar dele. É isso… Abandono os meus afazares para cuidar do fulano. Para não ser reconhecida depois?! : me sinto nada. Uma água que você pega e derrama assim…

Neste ponto, a consistência da escolha do medicamento fica exuberante. De qual erro a paciente se acusa? Ter deixado de cuidar dela mesma e de suas obrigações. Ora, isso é extremamente idiossincrásico porque é muito provável que nenhum de seus dois ex-maridos tenha se importado com tal comportamento, mas essa é a leitura que a paciente faz de sua própria experiência. Não cuidar dela mesma tem a ver com a expressão hold on to herself and hold tight – portanto, ela desviou-se, afastou-se de si mesma. Além disso, abandonou os seus deveres para cuidar do outro. Finalmente, ela se compara à água derramada. Derramar é espalhar, dispersar, difundir, repartir, distribuir etc.[i] Então, a paciente se condena por ter se ausentado de si mesma e, simultaneamente, se repartido para cuidar de outra pessoa.

Outros sintomas merecem comentário: Sou muito vingativa também. Sou mesmo!… Sempre digo – eu guardo um ano, para colher num segundo. Constata-se uma prodigiosa capacidade de concentração do tempo, reunindo um ano no átimo de um segundo. Acrescente-se que sua vingança não é provocar algum dano, mas apenas deixar de cuidar do ex-marido, não cumprir com aquilo que assumiu – e depois se arrependeu – ao invés de suas obrigações: Não lavo mais roupa pra ele, não faço mais comida…

No retorno, a paciente afirma o seguinte: Falta de alguém para conversar, dividir alguma coisa… A evolução do ser humano ocorre dentro do seu próprio tema existencial. Como a paciente vai elaborar o conflito de se centrar e ao mesmo tempo se dividir, ou seja, cuidar de alguém e ser cuidada? Como ela equacionará o antagonismo entre firmar-se em si mesma e executar os seus deveres para com a coletividade e os familiares? Ou ainda: de que modo estará concentrada nela própria e dividindo-se com o companheiro? O seu erro não foi o que ela supôs: ter deixado de cuidar dela mesma e de suas obrigações, mas talvez tenha sido não incluir os cuidados com o marido em sua cota de deveres. Além disso, fazer isso com amor, conservando-se com liberdade o suficiente para deixar de fazê-lo quando não mais necessário ou recusado. Porque não convém que o dever seja apenas uma coisa imperiosa, mas algo que se realize igualmente por amor.

Digna de nota também é a fala: Muito estressada, muito irritada, por nada! – choro, vontade de correr, de gritar, de espremer as pessoas e jogar fora. Sem sossego, andando o tempo todo. Espremer tem, dentre outras acepções, a seguinte: comprimir ou apertar para extrair o suco; lançar de si; apurar bem.1 Ressalte-se que espremer é contrair e concentrar, por um lado, e lançar fora de si, pelo outro, resultando algo apurado, o que contempla os dois polos do medicamento.

Observe-se que a paciente se refere a fila em suas duas consultas: 1) ex: numa fila; fui a terceira a chegar. Se funcionária passar alguém na frente, já fico de olho. 2) Tomar a frente e ajudar e incentivar, ensinar: você vai entrar numa fila assim e assim, ou como começar a resolver um problema… A primeira impressão é que a fila deve ser seguida, respeitada, e, depois, representa algo tão importante que precisa ser ensinado às pessoas como lidar com esta circunstância.

A palavra line (fila) tem 35 acepções[ii], das quais foram selecionadas as seguintes: O caminho traçado por um ponto em movimento. Uma marca fina e contínua, como a feita por uma caneta, lápis ou borracha aplicada a uma superfície. Um marco real ou imaginário posicionado em relação a pontos fixos de referência.[1] Ajustando à compreensão aqui proposta para Lilium tigrinum pode-se deduzir que fila representa uma linha em que a pessoa precisa ficar atenta ao seu próprio lugar. O sujeito na fila só pode avançar em direção reta, para frente, aos poucos. Não é possível retroceder nem sair pelas laterais, o que configuraria um desvio. Além disso, fila mostra evidente antagonismo à pressa (Constant hurried feeling as of imperative duties…), e é algo que horroriza os indivíduos apressados. No tocante à pressa, Lil-t apresenta sintomas peculiares no repertório[iii]:

MIND – HURRY, haste – aimless (pressa sem ter porquê). Lil-t.ckh1,mrr1,vh,vh/dg,vhx1

MIND – HURRY, haste – always in a (sempre com pressa) arg-n.tl1 ars-s-f.k2 dulc.gl1.fr lil-t.tl1 med.tl1 nux-v.gl1.fr sil.gl1.fr staph.gl1.fr sul-ac.rb2


[1] The path traced by a moving point. A thin continuous mark, as that made by a pen, pencil, or brush applied to a surface. A real or imaginary mark positioned in relation to fixed points of reference.


[i] Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.11ª

[ii] The American Heritage Dictionary of the English Language, Third Edition is licensed from Houghton Mifflin Company. Copyright © 1992 by Houghton Mifflin Company.

[iii] Synthesis 8.0. RADAR – software homeopático

[iii] Synthesis 8.0. RADAR – software homeopático
E


LILIUM TIGRINUM – CASO CLÍNICO 2

Segundo caso: LG, sexo feminino, 23 anos, dados obtidos em 2000; medicada com Lilium tigrinum desde a primeira consulta:

Perdi meu pai há um ano e meio. Mãe depressiva. Um mês depois apareceu o câncer da avó materna. Vida complicada. Perdida – larguei faculdade no sexto período. Não via sentido. Já pensando na possibilidade de voltar… Muito sem perspectiva.

Coisas me atropelando e eu indo

Sem meta. Não tenho certeza de nada. Levada pela correnteza. Queria ser mais objetiva. Tudo me desvia, me dispersa.

(paciente usando lenço de crochê)

Pensando em fazer terapia – quero me encontrar.

Estou perdida desde os meus 15anos.

Mãe não me respeitou como filha e nem eu a ela como mãe.

Minha responsabilidade aumentou demais com a morte do pai. Tendo que pagar Imposto de Renda, contas!… Ninguém da minha idade tem que fazer isto!!

Sinto inveja do meu noivo, da família dele. Ele também é filho único.

Inveja da minha mãe porque ela pode cuidar da mãe dela doente, e eu não pude do meu pai. Ele era tudo para mim.

Daria tudo para voltar a ter vida de antes dos 14anos. Sem preocupação. Queria que eles cuidassem de mim.

Fico louca para minha mãe arrumar um namorado. Para me tirar um pouco a carga de dormir com ela. Da minha responsabilidade com ela. Onde posso levá-la eu levo, mas acho que ela precisava de alguém…

Parece que consigo sentir tudo ao mesmo tempo. Como se feliz e não dou valor. Antes era assim. E lá prá frente pode vir muita coisa ruim e aí vou ver que não dei valor agora.

Após Lilium tigrinum 1000 FC, dose única:

Sensação que o tempo passa muito rápido e aí te escapa alguma coisa.

Melhorou muito a minha relação com minha mãe – nós estávamos muito agressivas.

Tendo mais problema ultimamente com o noivo. Nós ficamos juntos tempo integral. Eu errei em fazê-lo participar tanto e ser minha válvula de escape.

(paciente com arco fino na cabeça, trabalhado, dourado; óculos dourados com lentes amarelo-azuladas; brincos enormes em aro, dourados).

Frequentando grupo de oração às 2as. Ouvi o que precisava sobre morte do papai – confortada. Tentando passar isto para minha mãe.

Mudei radicalmente minha forma de pensar o profissional. Falei que não voltaria mais para o Direito… eu tinha que me permitir ficar um ano longe. Eu devia ter fechado minha matrícula quando meu pai morreu – mas fui ser fodona! Estou lidando com minhas frustrações mais tranquilamente. Sei que sou boa – preciso encontrar minha hora! No fundinho, já estou querendo voltar para o Direito – era inadmissível há 3-4meses atrás. Sem ser um fardo… Tudo tinha que ser rápido – para ontem!!

Esta paciente permite algumas considerações:

  1. Perdida – larguei faculdade no sexto período – a paciente ficou perdida por dois motivos: Coisas me atropelando e eu indo… juntamente com: Tudo me desvia, me dispersa. Repare-se que fantástica a sensação de ser atropelada e ir – ela não se machuca, não tem fraturas, não se julga morta. E para onde ela vai? Simplesmente desvia, se dispersa!
  2. Estou perdida desde os meus 15anosa sensação de estar perdido faz sentido para quem se deixa desviar ou afastar-se de si mesmo e de seus deveres. Hering[i] descreve o seguinte sintoma em Lil-t: cefaleia rasgante, enlouquecedora; sente como se ela fosse perder a razão; sensação louca parece correr para cima e para baixo da cabeça, como se a cabeça toda fosse partir em pedaços, com grande plenitude pressionando para fora, com sensação confusa; sente que tem doença no coração e não pode se recuperar ou que ela perderá a sua alma.[1] Desse modo, perder a razão ou perder sua alma são sensações que justificam a inclusão de Lilium tigrinum na rubrica repertorial: mind, delusion, lost she is (mente, ilusão, perdida, ela está).
  3. Mãe não me respeitou como filha e nem eu a ela como mãe. – ressurge aqui a questão “respeito”, igualmente realçada na primeira paciente (Parte I). Consultando o dicionário vê-se que respeito significa seguir as determinações de; cumprir, observar, acatar1. Ora, isso tem uma interface comum com o dever, cuja primeira sensação é de algo que é necessário cumprir. Portanto, é bem provável que o respeito entre cônjuges (1º caso) ou entre mãe e filha seja um dever que não comporta evasão.
  4. Minha responsabilidade aumentou demais com a morte do pai. Tendo que pagar Imposto de Renda, contas!… Ninguém da minha idade tem que fazer isto!! – pode-se considerar esta fala como uma variação do sintoma thinks she is doomed to expiate her sins and those of her family (pensa que está condenada a expiar os seus pecados e aqueles de sua família), não porque o problema da família ou dos outros se acumulou nela, mas porque os demais estão liberados desta obrigação e só ela tem que cumpri-la.
  5. Sinto inveja – a inveja é um sintoma bem fundamentado na dinâmica do medicamento, quando ela perde o hold on to herself.
  6. Queria que eles cuidassem de mim – cuidado significa: encargo, responsabilidade, conta1. Não é sem motivo que os casos clínicos se referem tanto ao cuidar dos outros – seja o marido ou familiares – como de si mesmo (por eles próprios ou por terceiros). Indiretamente, é como se ela dissesse: queria que eles cumprissem o seu dever de pais para com sua filha!

Desse modo, pode-se cogitar que o dever em Lilium tigrinum apresente-se principalmente na modalidade que envolve os encargos e compromissos relativos ao cuidar.

  • Para me tirar um pouco a carga de dormir com ela. Da minha responsabilidade com ela – paciente quer passar a obrigação de cuidar da mãe para outra pessoa.
  • Parece que consigo sentir tudo ao mesmo tempo – manifesta-se de novo o extraordinário sintoma de convergir tudo em si mesmo e compactado no tempo. A primeira paciente se vingava em um segundo de coisas acumuladas ao longo do ano.
  • Sensação que o tempo passa muito rápido e aí te escapa alguma coisa – discurso bipolar interessante: a rapidez aponta para a necessidade e o dever, mas devido à pressa, algo escapa. Veja-se que escapar é subtrair-se a um compromisso1.
  • Eu errei em fazê-lo participar tanto e ser minha válvula de escape – a segunda paciente também usou a palavra escape – através da leitura – cujo significado, dentre outros, é: recursos para obter liberdade (alívio) temporária de preocupação, cuidado ou desagrado.[2] Esta fala guarda estreita relação com a idéia de desvio, especialmente quando se imagina uma linha que se percorre para o cumprimento do reto dever. Um pequeno afastamento, uma folga das obrigações, pode ocasionar a sensação de escapadela para o sujeito.
  •  (paciente com arco fino na cabeça, trabalhado, dourado; óculos dourados com lentes amarelo-azuladas; brincos enormes em aro, dourados) – paciente deu a impressão e interesse pelos adereços bem trabalhados que habitualmente são classificados como “coisas finas”.
  • Frequentando grupo de oração às 2as. Ouvi o que precisava sobre morte do papai – confortada. Tentando passar isto para minha mãe. – a paciente quer repartir com a mãe, o conforto que hauriu na religião. Lilium tigrinum provavelmente enfatiza o aspecto moral em sua religiosidade, e tenderá à rigidez no polo positivo, não permitindo qualquer desvio. Por outro lado, a bipolaridade mostra que seria possível a prática religiosa com escapatórias e afastamentos, ocorrendo anomalias em que indivíduos de vida monástica ou pastoral se envolvem em abusos, particularmente, os de cunho sexual.
  • Eu devia ter fechado minha matrícula quando meu pai morreu – mas fui ser fodona! – manteve-se aderida à obrigação, ao dever. Foi forte em demasia para as suas próprias forças. Era para ter se desviado, desistido!…
  • já estou querendo voltar para o Direito – era inadmissível há 3-4meses atrás – tinha desistido (mente, assume muitas coisas, não persevera em nada), mas já admite reassumir o curso. Não como um dever árduo, o que poderia indicar uma sicotização, porém com o coração livre, porque afirma: sem ser um fardo…
  • Tudo tinha que ser rápido – para ontem!! – confirmando a pressa como sintoma nem sempre evidente no comportamento da pessoa, mas detectável em suas emoções ou decisões.

Terceira Fase: repertório

Algumas rubricas do repertório complementam o estudo da matéria médica e dos casos clínicos. Segue abaixo uma pequena seleção delas, cuja associação com os sintomas peculiares de Lilium tigrinum parece bem clara, e um breve comentário.

MIND – CONFUSION of mind – muscles refuse to obey the will when attention is turned away – (mente – confusão da mente – músculos se recusam a obedecer a vontade quando a atenção afastada)

gels.bg1,ckh1,st Hell.ckh1,k,mrr1 lil-t.bg1,st phys.ckh1

Este sintoma lembra o dado da matéria médica[ii] referente ao desejo de ser entretecida[3]. Mas, aqui o paciente se afasta tanto de si mesmo que os músculos não lhe obedecem quando sua atenção está desviada.

MIND – DELUSIONS – depending on him; everything is – (mente – ilusão – dependendo dele; tudo está)

lac-lup.hrn2 lil-t.bc

Este sintoma parece o oposto daquele já citado na Parte II, no estudo da matéria médica4: não pode decidir por si só, deve depender dos outros[4]. Neste último, a impressão é que tudo foi repartido entre os outros, não ficou nada com ele e, então, depende dos demais para efetuar qualquer decisão ou ação. No sintoma do repertório – tudo está dependendo dele – parece que tudo se concentrou nele, o que daria ao sintoma um parentesco com aquele, também já citado: pensa que é condenado a expiar seus pecados e os de sua família[5]. Talvez ele queira dizer que o fardo das decisões ou a responsabilidade dos cuidados relacionados aos demais convergiram para ele, fazendo com que os outros se tornassem dependentes de sua pessoa.

Aqui se pode inferir que se a concentração for, de fato, o conceito principal do polo positivo, isso pode acontecer não só em relação aos pecados, mas também às virtudes.

Do ponto-de-vista dialético, pode-se afirmar que a concentração em si ou em alguém ou em alguma coisa corresponde ao polo positivo, e o desvio, o afastamento, a divisão e o repartir constituem aspectos da polaridade negativa. Tudo indica que dever seja o mecanismo pelo qual Lilium tigrinum se concentra em si mesmo. Mas, é bom ter em mente que isso pode ser referido em relação a terceiros, bem como a qualquer fenômeno, como foi visto nas pacientes que o fizeram em relação ao tempo.

A seguir têm-se dois sintomas que podem ser englobados no mesmo comentário: MIND – DELUSIONS – forsaken; is – care for her; no one would (mente – ilusão – abandonado, está – cuidaria dela; ninguém) – Ham.fd3.de hurajsl lil-t.rb2 e

MIND – INDIFFERENCE, apathy – done for her; about anything being – (mente – indiferença – feito para ela; sobre qualquer coisa feita). LIL-T.kr1 til.ban1

Na primeira rubrica, vê-se a desesperança de que seja objeto do cuidado alheio e, no segundo, a indiferença a qualquer coisa que se lhe façam.

MIND – DELUSIONS – insane – become insane; one will – unless she got out of her body – (mente – ilusão – louco – se tornará – a menos que saia do seu corpo). lil-t.kr1

Muitíssimo interessante este sintoma porque é bem antagônico ao hold on to herself (tem que passar para si mesmo), revelando uma bipolaridade nítida. Sai de si mesmo, de seu próprio corpo, como mecanismo para não enlouquecer.

MIND – DISCONTENTED – possession; with her own – (mente – descontente – posses, bens; com os seus próprios). lil-t.ptk1

Pode se inferir que este sintoma revela um sujeito desconcentrado de si mesmo, que não transforma suas realizações em coisas finas, e, portanto, está descontente com os seus próprios bens ou posses. Seria um antecedente da inveja.

MIND – FEAR – business; of – (mente – medo – negócios, ocupações; de).

arg-n.stj2.nl Graph.kr1 Lil-t.kr1

 A insegurança quanto à sua habilidade para desempenhar os seus deveres imperativos[6] evoluiu para um medo de encarar suas ocupações.

MIND – FEAR – disease, of impending – unrecognized – (mente – medo – doença eminente – não identificada). lil-t.fyz raph.fyz

Na matéria médica existe menção a uma doença interna, já instalada. Aqui o sintoma gira em torno disso, mas com medo e a doença não foi ainda identificada.

MIND – GRIEF – hunting for something to grieve oneself – (mente – mágoa – procurando alguma coisa para magoar-se, sofrer). lil-t.k

Isso faz pensar que ele está buscando o sofrimento para si mesmo, concentrando-o em si. É possível que tal busca se concretize ao considerar que expiar os pecados de seus familiares ou, numa forma mais amena, quando assume sozinho alguma responsabilidade que deveria ser repartida.

MIND – HELD – amel. being held – (mente – seguro, apoiado – sendo, melhora). ars.bg2,ptk1 Bry.bg2,ptk1 calc-p.bg2 carb-an.bg2,ptk1 diph.bg2,ptk1 dros.bg2,ptk1 eup-per.bg2,ptk1 Gels.bg2,ptk1 glon.bg2,ptk1 Lach.bg2,ptk1 lil-t.bg2,ptk1 murx.bg2,ptk1 nat-s.bg2,ptk1 nux-m.ptk1 nux-v.ptk1 rhus-t.ptk1 sang.bg2,ptk1 Sep.bg2,ptk1 Sil.bg2 stram.bg2,ptk1 sul-ac.bg2,ptk1 sulph.bg2,ptk1

É a questão do cuidado: recebendo apoio, segurança, ele fica melhor. O sintoma da matéria médica sensação terrível na cabeça, como se eu fosse ficar louca e ninguém fosse cuidar de mim[7], aliado aos casos clínicos apresentados neste trabalho, permitem propor a criação da sub-rubrica repertorial desires to be, a ser acrescentada em mind, cares. Embora o medicamento conste no sintoma Ilusão, abandono, ninguém cuidaria dela, (Delusion, Forsaken is, care for her, no one could), o presente estudo conclui que não há necessariamente que se sentir abandonado para que se deseje ser objeto de cuidados.

MIND – HOLDING – mother’s hand; child constantly holding (mente – segurando-se – na mão da mãe – criança constantemente segura).

 Bism.c1,ptk1,vh Bism-sn.stj2.nl kali-c.al lil-t.al lyc.al Demontra que o paciente não está Hold on to herself, então, deriva para a mãe, não qual se apoia constantemente. Este sintoma parece uma variante da dependência.

MIND – INSANITY, madness – business failure; from (mente – loucura – negócios, ocupação – fracasso por). Cimic.kr1,st Lil-t.kr1

Ele transita da insegurança ao medo em relação às suas obrigações e se falha, o desfecho é sair de si mesmo através da perda da razão.

Vários sintomas relacionados ao sexo, no Repertório, mostram que esta função tem grande relevância na literatura. A amostra apresentada pelo autor é extremamente reduzida, mas nenhum dos pacientes revelou alteração sexual, seja pelo desvio ou abuso, seja pela autorrepressão. A sexualidade representa sem dúvida uma instância de manifestação frequente de obliquidade, na sua acepção de conduta imoral2.

MIND – LASCIVIOUS, lustful – alternating with – anger – lil-t.mrr1 (mente – lascivo – alternando com raiva).

MIND – LASCIVIOUS, lustful – alternating with – remorse – lil-t.mrr1 (mente – lascivo – alternando com remorse).

MIND – LEWDNESS – talk; lewd – (mente – obscene – fala; obscena).

aur.k Bell.k bufogk camph.k chlf.a1 cub.k Hyos.k,mrr1 Lil-t.k nux-m.j Nux-v.k phos.k plat.k Stram.k,mrr1 VERAT.hr1,k,st,tl1

MIND – RAGE, fury – sexual desire; from suppressed (mente – raiva, fúria – desejo sexual; por supressão do) lil-t.mrr1

MIND – RELIGIOUS AFFECTIONS – too occupied with religion – alternating with – sexual excitement (mente – afecções religiosas – muito ocupado com religião – alternando com – excitação sexual).

lil-t.k,sk7 Plat.k plut-n.srj7

MIND – SADNESS – alternating with – sexual desire (mente – tristeza – alternando com – desejo sexual) lil-t.k

MIND – PULLING – hair – ant-c.stj2.nl ant-met.stj2.nl Bell.k canth.gb dig.ptk2 lach.gb Lil-t.k stram.gb tarent.k tub.gb verat.gb

Quando um problema é grave costuma-se referir a ele como “cabeludo”. Arrancar os cabelos simbolizaria diminuí-lo. Além disso, cabelo é algo que se enraíza na pessoa e se espalha para fora em muitas direções.

MIND – SNAPPISH (mente – grosseiro) aran-ix.mg1.de calc-p.a1 CHAM.k2,kr1 granit-m.es1 LIL-T.bg2,vh/dg,vhx1 LUNAkg1 phos.k Staph.ckh1,ptk1

Perdeu a fineza – não está mais empenhado em ser ele próprio uma coisa fina.

MIND – SUICIDAL disposition – poison, by – ars.gl1.fr Bell.gl1.fr ign.kr1 lil-t.k op.a1 puls.gl1.fr

Veneno é aquilo que corrompe moralmente1. A obliquidade (conduta imoral)2 prevaleceu completamente.


[1] Terrible tearing, crazing headache; feels as if she would lose her reason; crazy feeling seems to run up back of head and feels as if whole head would be torn to pieces, with great fullness pressing out, with confused feeling; (…); feels she has heart disease and cannot recover, or that she will lose her soul.

[2] A means of obtaining temporary freedom from worry, care, or unpleasantness

[3] She wants somebody to talk to her and entertain her.

[4] can’t decide for herself, must depend on others.

[5] thinks she is doomed to expiate her sins and those of her family.

[6] Constant hurried feeling as of imperative duties and utter inability to perform them.

[7] Wild feeling in the head as though I should go crazy and no one would take care of me


[i] Hering C. The Guiding Symptoms. Disponível no Software Encyclopaedia Homeopathica.

[ii] Allen, H.C. Encyclopedia of Pure Materia Medica. Disponível no Software Encyclopaedia Homeopathica.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here