Oração do homeopata[1]

Gilberto Ribeiro vieira

Não há nada patológico no interior do corpo, nem tampouco alteração mórbida visível, suscetível de curar-se, que não dê a conhecer por si mesma à observação correta do médico, por meio de sinais e sintomas; disposição essa que está em perfeita harmonia com a infinita bondade do sábio Conservador da vida humana. Organon da Medicina – Samuel Hahnemann, parágrafo 14.

Por interior do corpo, Hahnemann se referia não apenas a órgãos e vísceras, esqueleto e nervos, mas abrangia também a vontade e o intelecto do indivíduo. Qualquer alteração por mais interna que seja, dá-se a conhecer. Trata-se de uma lei. Entretanto depara-se logo a seguir com uma exigência: observação correta do médico.

Isto para que possa perceber e compreender a linguagem nem sempre ostensiva dos sinais e sintomas.

Um sistema de alarme, automático, em que surgindo a avaria, ela imediatamente se manifesta, possibilitando intervenção e saneamento precoces, está presente em todo ser humano, constituindo um mecanismo de conservação da vida.

Gathak demonstra em seu livro “Enfermidade crônica su causa y curacion”, que a mente, tem suas funções divididas em três planos distintos, obedecendo à seguinte hierarquia, do interior para o exterior: afetividade, intelecto e memória.

A memória, situado na superfície desse órgão denominado mente, revela de maneira clara e evidente suas desordens, como também o faz a epiderme no seu papel de revestimento do corpo.

Em compensação, estes sintomas, ainda que muito marcantes num determinado caso, pouco ajudam na seleção, pois não expressam o modo de ser da pessoa.

As perturbações do intelecto já reclamam um pouco mais de perspicácia e acuidade para serem detectadas. As vezes torna-se difícil distinguir os sintomas entre si, e, a título de exemplo, citamos dificuldade para concentrar (concentration, difficult) e distraído (absent-minded). De forma idêntica, penetrando pele adentro na chamada Medicina Interna, o diagnóstico diferencial apresenta maior complexidade. Embora mais próximos ao núcleo da personalidade os indícios de disfunção a nível intelectual, também pouco contribuem na escolha do medicamento. Memória e intelecto apresentam-se, no repertório, através de rubricas que dizem apenas de funções alteradas, e a rigor, exprimem secundariamente a respeito da individualidade, em sua maneira de sentir e agir, exigência básica para uma prescrição correta.

Penetrando o campo mais intimo da mente, a afetividade, verifica-se que os obstáculos se multiplicam. É como se interiorizando no organismo, chegasse finalmente ao sistema nervoso central.

Focalizando com maior atenção, constata-se que este sistema, o mais interno, é o que apresenta melhores chances de se determinar com precisão o local e o tipo das alterações. Inúmeros e precisos diagnósticos de lesões neurológicas são obtidos com a anamnese e o exame físico, pela pesquisa da sensibilidade tátil, dolorosa e térmica, da capacidade motora, da coordenação, dos pares cranianos, e orientação têmporo-espacial.

Prosseguindo a analogia e comprovando a afirmação de Hahnemann no parágrafo 14, observa-se que a afetividade, como um sistema nervoso da mente, expõe invariavelmente suas anomalias para o exterior sem nenhuma exceção, através de suas atitudes doentias. O homeopata atento identifica na conduta do paciente certas características que o diferenciam dos demais. Sabe, além disto, que a postura autoafirmativa ou alheada, ou seja, sicose ou sífilis em resumidas palavras, escondem os sinais mais característicos: a psora do paciente.

A esta altura, podemos afirmar que a afetividade apresenta didaticamente três subdivisões: duas externas e equivalentes, que englobam todas as atitudes perceptíveis de um sujeito no mundo de relação e são conhecidas como sífilis e sicose; uma interna, que abarca os sentimentos do ser humano para com o Criador e consigo mesmo, denominada psora, que constitui a base, a mola propulsora de todas as ações e reações do indivíduo. Aliás, as duas primeiras são apenas tentativas de defender-se ante a única enfermidade, a psora.

Uma especificação mais detalhada, e a interrelação entre os três miasmas escapa ao objetivo deste tema. Prosseguimos, porém, o estudo da afetividade como se fora o sistema nervoso da mente.

Se o neurologista possui em seu auxilio, para complementação diagnóstica, a retirada de materiais para exames, ou a pesquisa eletroencefalográfica e radiológica etc., o homeopata só dispõe atualmente de um instrumento de aferição: a própria afetividade. Seu aparelho essencial de trabalho; referencial único utilizado em todos os casos.

Desnecessário aqui, realçar a importância fundamental do aprimoramento deste setor para o êxito da tarefa. A observação correta requer afetividade sadia. A reflexão sobre dois aforismos de Kent orienta em como se deve atuar:

  1. Você deve ver e sentir a natureza interna de seu paciente, como o artista vê e sente a pintura que está pintando.

A associação dos verbos ver e sentir poderia se traduzir por colocar-se no lugar de. Conhecer toda a história de um paciente ainda que nos mínimos detalhes, é vê-la; senti-la, é fazer a experimentação daquele vivido em si mesmo. Necessita extraordinária dilatação da sensibilidade para se viver, nos recônditos da própria intimidade, as sensações profundas vivenciadas por outrem.

  1. A mente humana não deve ser sobrecarregada com tecnicismo. Isto destrói o relato e liquida com o entendimento.

Conduzir um caso como se diante apenas de um conjunto de sintomas, em que a técnica determine previamente quais normas se devam seguir, em nada difere da postura de quem, perante um enfermo, esquece-lhe a condição de ser humano, para rotulá-lo, sem maiores escrúpulos, de mais um lindo caso de uma rara patologia qualquer.

Em síntese, para ser homeopata faz-se necessário sensibilizar-se, a fim de que a tomada de um caso não seja apenas uma colheita de sintomas entre duas pessoas distantes entre si, transformando cada interrogatório da anamnese numa estocada incompreensível para o paciente, e da qual se esquiva ocultando a verdade, ou então consegue com esforço abrir-se, antevendo que a rudeza de quem o aborda, revolvendo-lhe as feridas, não se preocupará em amenizar lhe as dores, sequer com um curativo de orientação ou consolo. Não tendo sensibilidade, não há delicadeza. Existe enorme abismo entre conseguir e arrancar.

 

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A imensa distância que separa a homeopatia da alopatia impede a muitos médicos a transição completa. Permanecem na faixa intermediária, entre a fronteira de ambas. Não significa nada bom ou ruim. O fato existe simplesmente. Correspondendo a isto, grande número de pessoas que não consegue adaptar-se à homeopatia, satisfaz-se com os serviços prestados por essa medicina intermediária, cujo objetivo principal ainda é a doença, enquanto à primeira interessa fundamentalmente a cura do doente, no seu aspecto psicoafetivo.

Essa homeopatia, que conserva rigorosamente os princípios básicos estabelecidos por Hahnemann, aperfeiçoando-os sempre que necessário e possível, reclama – para o sucesso de quem a pratica – todo esmero para com a afetividade própria, a fim de se atingir a compreensão do paciente como um todo.

Ao engajar-se nesta atividade, o médico reconhece estar realizando um empreendimento inédito na história da Medicina. O público que tanto lhe solicita o concurso, nem de longe imagina que este trabalho não passa de semente lançada ao futuro. Era imprescindível que no alvorecer da Era de Aquário desabrochasse uma nova medicina, compatível com um planeta mais humanizado e que socorresse o homem nos anseios de curar-se de suas mazelas desde a causa e de maneira eficiente e natural.

Reconhecendo-se tímido bandeirante em territórios médicos nunca explorados anteriormente, o homeopata pressente que o amanhã lhe reserva fabulosos tesouros e aplica-se em descobri-los. Às tradicionais três ferramentas usadas: doutrina, matéria médica e repertório, acrescentou sua capacidade afetiva e empenha-se com ardor em igualá-la em grandeza aos primeiros, exteriores, que a vida lhe concede para a sua grande aventura.

 

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Alegorias à parte, e enfocando-se dentro da lógica e do raciocínio, o homeopata de hoje é o embrião do médico do futuro. De um médico que vai lidar com gerações, sem dúvida, mais felizes. Podem-se fazer várias conjecturas a respeito do aprimoramento moral que se fará sentir em breve. Contudo, uma pequenina mudança, já presente nos dias atuais, simboliza essa renovação generalizada. Durante milênios sem conta, desde que o homem nasce na superfície da Terra, ele sempre comunicou sua chegada ao mundo através de uma saudação com gemidos e choro. Recentemente, o próprio ser humano transformou esse instante sofrido, em minutos de ternura e carinho, fazendo o recém-nascido repousar no regaço materno em seus momentos iniciais de vida.

Finalmente, parafraseando o apóstolo Paulo, no capítulo treze da primeira epístola aos coríntios, surge um pequeno cântico que se poderia intitular de Oração do Homeopata:

Ainda que eu dominasse a língua do repertório e da matéria médica, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse dom de muita inteligência e conhecesse toda a técnica e toda a ciência, e ainda que tivesse toda argúcia, de maneira tal que conseguisse sempre os dados suficientes, e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que trabalhasse todos os meus dias para atendimento dos pobres, e ainda que me entregasse ao trabalho até me exaurir, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha.

[1] Apresentado no XVI Congresso Brasileiro de Homeopatia – Curitiba – 1982, pelo autor.

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