(Baseado na tese de doutorado História de Vida e Prognóstico)

O sujeito mantém-se afetado no nível psicológico, estagnando-se em conflitos do pretérito, ainda que veladamente. No íntimo persiste enredado em frustrações, mágoas e queixas, apesar do acúmulo dos anos. Igualmente, as oportunidades são desperdiçadas ou ostentam um rendimento pífio, quase nulo. Assim, a eclosão da parcela orgânica de sua enfermidade encontra-o despreparado e o resultado constitui um mistério. A patologia costuma não ceder ou reaparecerá em breve tempo – ainda que o tratamento seja muitíssimo adequado – no mesmo órgão ou, se este for extirpado, em suas vizinhanças.

Desse modo, o sujeito vê-se enrascado nas teias da cronicidade. As crises de faringite que substituem as amigdalites, após a cirurgia das tonsilas constituem clássico exemplo. As convulsões cederam mediante o uso de medicamento específico, contudo a agitação psicomotora e a insônia revelam que ocorreu uma diluição da “catarse” neurológica, que acontecia nos espasmos convulsivos, em pequenas doses diárias de movimentação difusa. Ocasionalmente, ocorre a mudança de polaridade do corpo para a mente, a exemplo da depressão acentuada que segue a retirada de útero devido a sangramentos intensos e incontroláveis, ou após a implantação de prótese para melhorar a irrigação sanguínea do coração. Enfim, a doença de alguma maneira demonstra que continua no mesmo padrão. Altera a fantasia, mas a nova equivale por completo à anterior; é a mesma coisa em essência e, às vezes, somente inverte o sinal e migra da abundância para a escassez e vice-versa, ou da excitação para o medo e ao contrário.

Todavia, o aparecimento da lesão orgânica pode suscitar reflexões profundas e salutares nesse indivíduo, promovendo renovação psicológica importante e que contribuirá de forma notável para a restauração de sua saúde. O leito hospitalar origina verdadeiros milagres, ao induzir o sujeito – frequentemente por iniciativa pessoal – a um balanço de sua própria trajetória, o que surte conclusões de grande alcance, ensejando modificações significativas em sentimentos e conduta.

A terapêutica adequada pode lhe despertar surpreendente sensação de bem-estar a convocá-lo ao trabalho de reformular sentimentos, conceitos e posturas, bem como o revigora para enfrentar dificuldades e situações às quais ele se acomodou ou impôs sistematicamente a sua versão distorcida ou escolha inadequada. O desfecho do tratamento depende da maneira como o indivíduo apura o seu drama íntimo e da solução que é capaz de elaborar para as questões que jaziam pendentes em sua própria consciência.

 

 

 

 

 

 

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