(Baseado na tese de doutorado História de Vida e Prognóstico)

Alguns indivíduos cursam rota de agravação discreta e contínua a de seus problemas psicológicos. Transmutam as oportunidades de crescimento pessoal em processos desgastantes e arrastados, ou degeneram os relacionamentos afetivos em fonte de atritos intensos e duradouros. As situações conflituosas ou adversas assumem contornos graves devido à sua inconformação, repleta de queixas, cobranças e autojustificativas. Têm o hábito de acusar as circunstâncias, os outros e o destino por falhas que o aborrecem; exaltam-se por supostos prejuízos que isso lhes acarreta e reivindicam reparações. Vivem em litígio encoberto com o mundo. Nada é bom, nada é justo, nada é adequado.

Enquanto o tipo anterior, o complicado, mergulha rapidamente na perda, na decepção, no fracasso, num quadro em que predomina a reação intensa e precipitada, aqui ocorre uma acentuação constante do transtorno. O sujeito exala insatisfação. E suas reclamações e acusações minam as chances de prazer e de alegria. Suas relações afetivas ou seu envolvimento com o trabalho deterioram e o mal-estar perdura. Escasseiam as possibilidades de retorno ao patamar de contentamento que prevaleceu durante a planificação das realizações e instala-se o que se denomina de “relacionamento neurótico”, porém laços de compromisso, necessidade ou carência de afeto prendem-no à situação. Alega diversas razões para não mudar sua ocupação ou para não romper a união amorosa infeliz e adulterada, e vive num clima em que se sente angustiado e oprimido. Pergunta-se a si mesmo como a sua existência chegou àquele ponto de frustração e decaimento. E o pior de tudo: não vê saída, o que o mortifica e deprime mais ainda.

A manifestação da porção orgânica decorrente de tal trajetória costuma apresentar-se com tendência não só à cronificação – pela paralisia nas dificuldades e conflitos – mas, também à piora espontânea, coerentemente ao fato do indivíduo intensificar seus problemas e desacertos. Assim, a lesão orgânica já surge com ares de cronicidade e denota agravação progressiva dos sintomas. Nas mulheres, com frequência, o processo inicia com alterações leves no ciclo menstrual; com o tempo, estrutura-se uma lesão, a exemplo do mioma; posteriormente, surge alguma patologia mamária; depois, afecção na tireoide e, de forma paralela, a acentuação dos elementos de teor psiquiátrico, destacando-se os rotulados de depressão. Portanto, a história que revela piora progressiva, na linha do tempo – seja de distúrbios orgânicos importantes ou características psicológicas proeminentes – denuncia reduzida ou escassa chance de cura. Reverter a tendência à exacerbação que se consolidou tanto no corpo como no emocional traduz enorme desafio.

Apesar desse quadro adverso, que engendra o prognóstico do tipo moderadamente desfavorável, um tratamento adequado pode direcionar ao êxito. Nesse caso, ocorre a eliminação do morbo latente – mental e/ou físico – que se encontrava em elaboração. Tal possibilidade parece constituir a essência da agravação ou reação paradoxal, como é denominada nos círculos biomédicos, e foi objeto de análise no capítulo Agravação Terapêutica (vide Homeopatia e Saúde: do reducionismo ao sistêmico, pag. 211).

Mas, existe também o risco de uma intervenção de caráter radical – geralmente de cunho reducionista – malograr-se e o reaparecimento do desajuste suceder pouco tempo depois, seja inalterado ou pior, dependendo da intensidade do distúrbio psicoafetivo, salvo raros casos em que o paciente refaz o seu entendimento e postura diante das situações e das pessoas, e não se permite a autodestruição no remorso ou na menosvalia. Então, recompondo a esperança, restaura seus relacionamentos enfermiços, arejando-os com gratidão, afeto e sinceridade.

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